Mestre Fil


1996 | Pedro Vieira de Almeida
Mestre Fil

Texto publicado na revista Arquitectos, nº 159, Maio, 1996, p. 17

 

Creio que em contactos especificamente profissionais, obrigatórios por assim dizer, apenas me terei cru­zado com o Arq. Octávio Lixa Filgueiras, por duas vezes.

Quando foi arguente da minha tese de formatura no Porto – que foi quando o conheci por intermédio do Arnaldo Araújo – e quando mais tarde, estava eu em Bragança com o encargo do GAT 15 fui chamado a chefiar o Grupo de trabalho da cidade romana de Braga.

Destas duas ocasiões guardo a memória do seu grande saber e apurado sentido crítico.

Também por seu intermédio fui ao Porto, dar umas aulas de teoria de arquitectura, na previsão de uma actividade que como de outras vezes, por motivos vários nunca se haveria de concretizar.

Todas as outras vezes que estivemos em contacto, foi por escolha deliberada, pelo prazer de discutir preo­cupações comuns de índole teórica, pedagógica e do concreto exercício da profissão.

Outro ponto de interesse comum, o património.

Estes temas quási nos bastavam para amenas mas aprofundadas cavaqueiras nocturnas, nas quais muito pude aprender da consciência crítica e do rigor da formalização teórica que caracterizavam o seu espírito. Mais tarde tive o privilégio de ser escolhido por ele, para prefaciar uma re-edicão do livro “A Responsabilidade Social do Arquitecto” pequena, despretensiosa, mas muito significativa obra, que tinha servido de dissertação académica.

Rigoroso e exigente, dotado de uma notável acuidade intelectual, de um espírito mordaz e de uma lucidez penetrante, Octávio Lixa Filgueiras detectava com agudeza risonha os ridículos de uma profissão.

Talvez esse facto e um mal disfarçado receio do seu espírito vivíssimo, lhe granjeasse algumas sólidas ini­mizades, que ele sabia gostosamente ironizar.

Progressivamente vim a descobrir em Lixa, não só um homem de humor requintado, mas um homem de largo sentido humorístico, criador de universos de fantasia e absurdo, de insuspeitada filiação surrealista, em contos que timidamente, – outra característica menos conhecida do seu carácter – mostrava apenas aos amigos.

“A Filha do Chefe da Estação” ou “O Dedo” entre outros, são contos de um fantástico humorismo corrosi­vo, que espero brevemente venham a conhecer uma divulgação merecida.

Até um dia Mestre Fil.

Pedro Vieira de Almeida
Lisboa, 1996