Arnaldo Araújo


2002 | José Forjaz
Arnaldo Araújo

Texto redigido para lido por altura dos debates organizados pelo CEAA a propósito da Exposição Caseira /1: Arnaldo Araújo, Arquitecto (1925-1982).Porto: ESAP, 2002

Maputo, 19 de Outubro de 2002

Arnaldo Araújo

Caros amigos, colegas e companheiros,

A ponte intelectual e emocional que nos liga, por cima de dois continentes e de dois oceanos, teve alguns pilares fundamentais e específicos desta nossa vocação cultural.

O Arnaldo Araújo foi um deles. Talvez mesmo um dos mais importantes, entre outros, todos parte da mesma tribo: o António e a Clara Quadros o João José e a Maria Carlota Tinoco, o Rui Pimentel, o Fernando Condesso, o Veiga Camelo, o Fernando Mesquita, o Zé Dias, o Barata Feyo e outros, que me perdoem, desta tribo nortenha que, em Moçambique, se encontraram com outros tantos da tribo Lisboeta como o Zé Bruschi, o Manuel Vicente e a Natacha, o Figueira, o Craveiro Lopes, o Roxo a Assunção Paixão, o Worm, o Soeiro, o Pedro Vieira d’Almeida, etc.

Esta aventura, esta ponte, começa só realmente a construir-se e a estruturar-se no princípio dos anos 60, para se desfazer quase por completo a partir de 74.

Vista do nosso lado, do lado africano, esses foram os anos que, de alguma forma, representam a arquitectura e o pensar da arquitectura, portuguesa em Moçambique.

De facto, excluídos alguns episódios mais ou menos significativos, e sem grande valor como referência válida para uma arquitectura mais marcada pelas condicionantes locais, nem antes, nem durante o fascismo português, se realizou uma acção de real aculturação arquitectónica em Moçambique.

Os anos a que me refiro, os do princípio da década de 60 a meados da década de 70 foram então aqueles onde poderemos ir buscar algum significado cultural à expansão do pensamento arquitectónico português em África.

Foram-no por dois motivos principais – primeiro porque foram aqueles em que se construiu a maior parte do património construído existente e depois porque foi nessa época que, como já dito, esse património foi maioritariamente projectado e construído por arquitectos, desenhadores, engenheiros e construtores portugueses.

Durante uma parte importante desses anos o Arnaldo Araújo representou, para muitos de nós uma forma de consciência, quase extra-corporal, da obrigação de reflectir sobre o que se projectava e como se projectava.

Eram os anos feios da PIDE, da orgulhosa solidão colonial, do provincianismo eleito em filosofia, do perigo de ser culto e do risco das ideias próprias (leia-se “avançadas”Š)

A Espanha ainda era um tampão ao contacto com meios mais civilizados mas começava-se a viajar e a descobrir mundos sem comissão de censura sem medo do debate e envolvidos na aventura do pensar em liberdade.

África foi, para os que vieram, uma lufada de ar fresco, um outro mundo, uma descompressão.

Ali, mais perigoso que o comunista era o preto, e isso emprestava uma certa bonhonomia às relações entre os intelectuais e a polícia fascista; até porque nem sempre os comunistas se identificaram com os independentistas.

Iam-se as coisas resolvendo com uns choques eléctricos, umas lambadas e umas

semanas ou uns meses de prisão, mas os poucos brancos que havia não podiam ser desperdiçados, até porque, de qualquer forma, iam contribuindo para o progresso e consolidação do “mundo português”.

O Velhinho (como afectuosamente chamávamos ao AA) veio para Moçambique já marcado por uma experiência de vida curiosa, do largo espectro de contacto social da mais profunda ruralidade da terra fria transmontana à mais urbana civilidade do Majestic.

Colegas mais jovens, da nossa profissão e arte, não se darão conta facilmente, através das páginas eruditíssimas do J.A, da limitadíssima dimensão do debate e da cultura arquitectónica dos primeiros anos 60 e até bem dentro dos 80’s.

Os arquitectos tinham, todos, trabalho. Pouco mas consistente. Os alunos, todos, trabalhavam nos ateliers (pois também se assim não fosse, pelo menos a maioria, não comiam).

Era-se pobre e a pobreza era um problema. Era mesmo o problema.

De arquitectura discutia-se, pelo menos tanto qual fazer como como fazê-la.

O mundo era imperfeito mas havia, ainda, e fortemente a ilusão de que o poderíamos aperfeiçoar.

Na arquitectura o mundo começava provavelmente na Sicília com o Danilo Dolci e acabava na América do SOM e do Wrights mas ainda se aprendiam a desenhar as ordens gregas em papel colado nas pranchetas.

Quando cheguei ao Porto em 54 com o Aalto, o Wright, o Martiensen e o Corbusier debaixo do braço, percebi que pertencia a outro clube. Aquela Europa era exclusivamente do Corbusier, dos CIAM e, lá por trás, a Bauhaus ainda tolerada.

Mas era sobretudo, e ainda, o debate do moderno e do antigo, da casa portuguesa e do modernismo, das escolas dos centenários e dos liceus do Mestre Ramos.

Por trás de tudo isto, na tertúlia do Majestic, o AA ia-nos desvendando descobertas como quem tira gatos do chapéu.

Foi ele que trouxe o Bachelard e o Dolci, o Lefévre e o Chombart-de-Lowe, o Tio Feixa de Pitões das Júnias e esse extraordinário poeta analfabeto do Alentejo António Joaquim Lança. E o cinema, e o teatro (que não muito a música que nisso o Porto era pobrezinhos)

Quando o conheci em 55 estava já ele a começar a tese (chamado CODA). Sobre o habitar no interior de Trás-os-Montes.

Fiz-lhe pelo menos um milhão de cabelinhos naqueles espantosos desenhos em que eu e o António (Quadros) o ajudámos (contra uma certa ira mal-contida da mãe que nos queria dali para for a bem antes das primeiras horas da madrugada).

Desse clube, infelizmente, pouco ficou, que saiba eu, registado.

Tenho como certo que foi exactamente da disponibilidade absoluta para pensar a 360°, que o AA trouxe ao debate, que se ia produzindo, com a ajuda de tranfugas lisboetas como o Raul Hestnes, o Zé Pulido e outros e com as pontes que se criaram com os Keils pai e filho e seus associados clans, e, muito especialmente, com a indistinguibilidade da validade espacial das três artes, que se estruturou uma tradição de responsabilização social do arquitecto e artista e, sobretudo, da necessidade do pensamento esférico, de diâmetro sempre acrescentado.

Mais tarde trabalhámos juntos, com o Frederico Jorge e o Laginha no concurso para a Sede da Gulbenkian. Foi a única experiência de colaboração directa num projecto de arquitectura que fiz com o Arnaldo. Gostaria um dia de voltar a ver esse exercício mas a recordação desses meses é a de uma espantosa conversa de surdos nos dois dias por semana que o AA passava em Lisboa e que eu depois ficava a resolver entre o racionalismo do Laginha e as concessões do Frederico. Era realmente uma sopa feita de chocolate com alho.

O Arnaldo recozendo, scarpianamente, cada espaço com a sua própria identidade à volta de uma vaga ideia de conjunto articulado; o Laginha, talvez até por influência familiar, à procura de um nexo estrutural, incoerente com aquela diferente coerência, mas para ele indispensável à estruturação de uma composição construível; o Frederico, que percebia as duas atitudes revolvia-se angustiado com o prazo.

Penso não ter havido observatório mais privilegiado para compreender a incompatibilidade dos ethos antagónicos da geografia conceptual da arquitectura portuguesa!!!

Naturalmente que ganhou um projecto competente, acabado a tempo e de alto valor urbano e arquitectónico. Mas o do Arnaldo, se o tivessemos conseguido acabar, teria sido genial.

Essa época, marcou uma real viragem no ensino da arquitectura, consubstanciada pela reforma de 1960. Dela vêm ao de cima como fundamentais, na construção do pensamento crítico e criativo artístico, outras personalidades que, orquestradas pelo Mestre Carlos Ramos, construíram as bases de uma cultura técnica e estética, renovadora, cuja relevância se viria a manifestar pujantemente após o 15 de Abril.

Refiro-me sem dúvidas ou reservas ao Prof. Barata Feyo e os seus discípulos muito especialmente ao Lagoa Henriques, ao Prof. Gusmão, e ao grupo de novos assistentes, entre os quais o AA e o Octávio Lixa Filgueiras, representavam o sector mais intransigente na exigência da responsabilização social do arquitecto, para lá da sua função criativa técnico-estética.

O Godinho, o Viana de Lima, o Andresen, o Loureiro, o Rica, o Mário Bonito, o Távora eram já personalidades estabelecidas com obra conhecida e debatida e à volta de quem se agregava um grupo mais vasto, e desmultiplicador de gente como o Gigante, o Siza, o Soutinho, etc., etc …

O Arnaldo era já, nessa altura, o agente incómodo que obrigava a pensar, a duvidar, a ir mais fundo no argumento, na construção das ideias, na fundamentação teórica das posições. Posso mesmo arriscar que o debate do princípio dos anos 60 foi conduzido por duas personalidades fundamentais – o Arnaldo Araújo e o António Quadros.

Não posso avaliar as consequências exactas da partida desses dois pensadores para África. Penso que, de alguma maneira, o meio ficou mais pobre, menos estimulado, mais complacente para consigo próprio.

Fui encontrá-los aos dois, e aos outros referidos já, no meu próprio meio de formação e social, onde pude constatar a crescente fermentação intelectual que com eles trouxeram, equilibrando e complementando as fortes ligações culturais que o Pancho Miranda Guedes tinha estabelecido com a África do Sul e, assim, com o meio mais vasto e cosmopolita da língua inglesa.

Os percursos divergiram depois. O António, eu próprio e alguns outros optámos pela aventura de construir um novo país com o qual nos sentíamos profundamente responsabilizados e emocionalmente comprometidos.

O Arnaldo e quase todos os outros voltaram e escolheram uma outra luta, um outro contributo, outros desafios, outra revolução.

Finalmente também o António voltou e, com essa volta, voltei a saber do que no meio pensante do Porto se passava. Voltei a saber da centralidade, talvez agora menos protagonista, do Arnaldo nos anos 80.

Voltei a vê-lo, uma só vez mais e não muito tempo antes de ele desaparecer e a conversa reatou com a mesma afinação semântica e mais 10 anos de argumentos.

Uma noitada, mais, de violentos e fraternais entre-choques políticos e identificação ideológica. Como sempre com muito para aprender e magníficas dúvidas para remoer no futuro. Algumas das quais persistem, e por isso lhe agradeço.

O grande valor do Arnaldo não foi certamente o de ter sido um arquitecto realizador de arquitecturas, ou um teórico sistematizador de ideias. Foi a do método. Um método que ele praticava com a naturalidade de um esgrimista samurai ou de um arqueiro zen – pensar sempre, pensar tudo, duvidar de tudo, apaixonar-se por tudo o pensável, procurar sempre a razão da razão de ser das coisas e das ideias e ser sempre capaz, como dizia o António, de ver o universo no fundo do quintal.

José Forjaz
20.10.2002